Willing or not.

Publicado: outubro 20, 2013 em Textos

Dei adeus ao que era
Sem encontrar o que queria,
O que sou.

Todo dia me encontro
Sempre perco algo;
Todo dia sumo,
Sempre ganho.

O grilhão ainda pende do corpo
Ligado no que perdi,
deixei ir.

Não tenho mais.

A força se esvai
Enquanto seguro
No que já foi,
Se derramou.

Não é mais.

Todo dia sumo,
Sempre perco algo;
Todo dia me encontro,
Sempre ganho algo.

Os dias são para
Achar e perder.
Mas a vida
Para deixar e levar.

Dar e receber.

E é

Publicado: outubro 20, 2013 em Textos
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É tão complicado
quanto pequeno;

Tão simples
como imenso;

É tão infinito
quanto duvidoso;

Tão fugaz
como concreto;

É tão frágil
quanto a obsidiana
e ainda ferrenho;

É tudo o que parece
assim como nada
com que se tenha comparado antes;

É sinônimo do parônimo
como o antônimo do seu par;

O que é ou deixa
e deixa
de ser não importa;

Simplesmente é.

Tikkun Olan

Publicado: março 28, 2013 em Textos
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Às vezes penso que o mundo está caindo,
em pedaços
Outras, que quem está em frangalhos sou eu,
nós
Várias vezes me pergunto qual o meu propósito
E se, ele não for melhorar o mundo
Mas ajudar a gente nele?
Se juntarmos os nossos zilhões de pedaços,
ser inteiros,  como partilhados:
Compartilhados,
ele vai sarar?

É, sinto tanto assim.

Reverbera  lá dentro

As coisas se dilatam e contraem

Como uma sanfona de meia idade

Dói tanto

Que a dor já não é mais sentida

Faz companhia.

Então, olho dentro daqueles pequenos olhos pretos

Tão novos e já cansados

Rosto sujo de graxa, olheiras profundas

Inocencia roubada.

Tudo isso montado num corpinho esquálido.

Minha dor deixa de ser minha.

A não-dor dele é, por momentos, nossa.

Será que ele a sente, ao manejar aquela borracha quente?

Direito trabalhista, etcetra e tal, jornada de oito horas?

Não creio.

De sete às onze da noite, quanto dá ?

Chega em casa, com um ou dois reais

Ao entregar para sua avó, recebe o sorriso com dentes puídos.

Ou sorriso nenhum, ela está sobrecarregada.

Deita e dorme.

Sinto tanto assim.

Me sobem as lágrimas.

É-me duro segurá-las.

O nó na garganta engrossa.

Que garotinho hein.” – ela exclama.

[ Como ele foi notado, se o pescoço dela estava torcido pro outro lado?  – me pergunto ]

Sim, ao menos ele não está roubando de algum pai de família.” – ele responde.

As lágrimas me descem.

Tanta dor, tanto amor aqui dentro

Quanto horror, oh o torpor, lá dentro

Braços em tipóias mentais

Pés cimentados no chão do carro

As mãos não se esticam, os pés não se movem

A ajuda nunca chegou

O amparo nem ao menos foi enviado.

Engulo de volta o nó, ele volta e rechicoteia no coração

Todo mundo tão ocupado na pátria

Que jogam na escória a pária

Chicote na alma.

Em que tipo de nação um menino, aos sete anos

Rola dezesseis horas na graxa e na borracha

Pra ganhar o um real do pão?

Excesso

Publicado: março 18, 2013 em Textos
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Em demasia.

Mais; muito mais que o necessário.

Ou menos que o insuficiente.

De mais.

É o quanto eu me entrego.

É muita dor.

Pra pouco calor.

Ora tudo.

Ora a sobejo de nada.

Sou, eu,  excessiva em  faltas

Ou sou, eu,  excessos suprimidos ?

Meu pequeno rolo compressor.

Publicado: março 17, 2013 em Citou
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Lá fui eu, num sábado de manhã fazer uma prova. Aquela não  foi uma provinha qualquer, cheia de non-sense. Bem no meio, encontrei um texto mais do que interessante, do Arnaldo Jabour. E lá se foi um bom tempo sem nem pensar nele. Mas hoje, no caminho do mercado, tive que parar pra calibrar os pneus do carro. De repente, aquele texto do Jabour, bateu com uma força tão impactante em mim, que não consegui parar de pensar no rostinho daquele menino. No meio do mercado, lista de compras e calculadora na mão, tinha, por sorte um guardanapo e lápis. Lá fui eu , ainda retardada pela experiência no posto de gasolina,  fazendo compras e escrevendo o que senti quando olhei nos olhos da criança. Já foi amassado alguma vez por um rolo compressor ? Eu fui hoje.

 

” O menino parado no sinal de trânsito vem em minha direção e pede esmola. Eu preferia que ele não viesse. A miséria nos lembra que a desgraça existe e a morte também. Como quero esquecer a morte, prefiro não olhar o menino. Mas não me contenho e fico observando os movimentos do menino na rua. Sua paisagem é a mesma que a nossa: a esquina, os meio-fios, os postes. Mas ele se move em outro mapa, outro diagrama. Seus pontos de referência são outros.

Como não tem nada, pode ver tudo. Vive num grande playground, onde pode brincar com tudo, desde que “de fora”. O menino de rua só pode brincar no espaço “entre” as coisas. Ele está fora do carro, fora da loja, fora do restaurante. A cidade é uma grande vitrine de impossibilidades. O menino mendigo vê tudo de baixo. Está na altura dos cachorros, dos sapatos, das pernas expostas dos aleijados. O ponto de vista do menino de rua é muito aguçado, pois ele percebe tudo que lhe possa ser útil ou perigoso.

Ele não gosta de ideias abstratas. Seu ponto de vista é o contrário do intelectual: ele não vê o conjunto nem tira conclusões históricas – só detalhes interessam. O conceito de tempo para ele é diferente do nosso. Não há segunda-feira, colégio, happy hour. Os momentos não se somam, não armazenam memórias. Só coisas “importantes”: “Está na hora do português da lanchonete despejar o lixo…” ou “estão dormindo no meu caixote…”
Se pudéssemos traçar uma linha reta de cada olhar do menino mendigo, teríamos bilhões de linhas para o lado, para baixo, para cima, para dentro, para fora, teríamos um grande painel de imagens. E todas ao rés-do-chão: uma latinha, um riozinho na sarjeta, um palitinho de sorvete, um passarinho na árvore, uma pipa, um urubu circulando no céu. Ele é um espectador em 360 graus. O menino de rua é em cinemascope. O mundo é todo seu, o filme é todo seu, só que não dá para entrar na tela.

Ou seja, ele assiste a um filme “dentro” da ação. Só que não consta do elenco. Ele é um penetra; é uma espécie de turista marginal. Visto de fora, seria melhor apagá-lo. Às vezes, apagam. Se não sentir fome ou dor, ele curte. Acha natural sair do útero da mãe e logo estar junto aos canos de descarga pedindo dinheiro. Ele se acha normal; nós é que ficamos anormais com a sua presença.

Antigamente não o víamos, mas ele sempre nos viu. Depois que começou o medo da violência, ele ficou mais visível. Ninguém fica insensível a ele. Mesmo em quem não o olha, ele nota um fremir quase imperceptível à sua presença.

Ele percebe que provoca inquietação (medo, culpa, desgosto, ódio). Todos preferiam que ele não estivesse ali. Por quê? Ele não sabe.

Evitamos olhá-lo; mas ele tenta atrair nossa atenção, pois também quer ser desejado. Mas os olhares que recebe são fugidios, nervosos, de esguelha.

Vejo que o menino se aproxima de um grupo de mulheres com sacolas de lojas. Ele avança lentamente dando passos largos e batendo com uma varinha no chão.

Abre-se um vazio de luz por onde ele passa, entre as mulheres – mães e filhas. É uma maneira de pertencer, de existir naquela família ali, mesmo que “de fora”, como uma curiosidade. Assim, ele entra na família, um anti-irmãozinho que chega. As mães não têm como explicar aos filhos quem ele é, “por que” eles não são como “ele” (análise social) ou por que “ele” não é como nós (analise política).

Porém, normalmente, mães e pais evitam explicações, para não despertar uma curiosidade infantil que poderia descer até as bases da sociedade – que os pais não conhecem, mas que se lhes afigura como algo sagrado, em que não se deve mexer.

O menino de rua nos ameaça justamente pela fragilidade. Isso enlouquece as pessoas: têm medo do que atrai. Mais tarde, ele vai crescer… e aí?
O menino de rua tem mais coragem que seus lamentadores; ele não se acha símbolo de nada, nem prenúncio, nem ameaça. Está em casa, ali, na rua. Olhamos o pobrezinho parado no sinal fazendo um tristíssimo malabarismo com três bolinhas e sentimos culpa, pena, indignação. Então, ou damos uma esmola que nos absolva ou pensamos que um dia poderá nos assaltar.

Ele nos obriga ao raríssimo sentimento da solidariedade, que vai contra todos os hábitos de nossa vida egoísta de hoje. E não podemos reclamar dele. É tão pequeno… O mendigo velho, tudo bem; “Bebeu, vai ver a culpa é dele, não soube se organizar, é vagabundo”. Tudo bem. Mas o mendigo menino não nos desculpa porque ele não tem piedade de si mesmo.

Todas nossas melhores recordações costumam ser da infância. Saudades da aurora da vida. O menino de rua estraga nossas memórias. Ele estraga a aurora de nossas vidas. Por isso, tentamos ignorá-lo ou o exterminamos. Antes, todos fingiam que ele não existia. Depois das campanhas da fome, surgiram olhares novos. Já sabemos que ele é um absurdo dentro da sociedade e que de alguma forma a culpa é nossa.

Ele tem ao menos uma utilidade: estragando nossa paisagem presente, pode melhorar nosso futuro. O menino de rua denuncia o ridículo do pensamento ‘genérico-crítico’ – mostra-nos que uma crítica à injustiça tem de apontar soluções positivas. Ele nos ensina que a crítica e o lamento pelas contradições (como estou fazendo agora) só servem para nos “enobrecer” e “absolver”. Para ele, nossos sentimentos não valem nada.

E não valem mesmo. Mesmo não sabendo nada, ele sabe das coisas”